Joshua Greene. Crédito: Greg Salibian

Fronteiras: “moral é a solução da tragédia comum”, diz Joshua Greene

O professor de Harvard abordou a maneira como nosso cérebro toma decisões morais e como a cultura é fator determinante para a formação da moralidade

Em São Paulo, a mais recente edição do ciclo de palestras e debates Fronteiras do Pensamento recebeu Joshua Greene, psicólogo, neurocientista e filósofo, que atua como professor e diretor do Greene Lab na Universidade de Harvard. A apresentação de Greene foi mediada pelo jornalista João Gabriel de Lima.

Neste ano, os eventos promovidos pelo Fronteiras do Pensamento têm como tema central: mundo em desacordo, democracia e guerras culturais. A abordagem de Greene para lidar com a questão está na moralidade, tema no qual é especialista e que motivou o seu último livro, Moral tribes: emotion, reason, and the gap between us and them.

Para o professor de Harvard, a definição de moralidade pode ser entendida como a busca pela solução da tragédia entre os comuns, ou seja, entre nós, seres humanos. “É uma espécie de ferramenta que vive em nossa cabeça e permite evitar a tragédia ao pensar no bem-estar de todos”, explicou. “As pessoas não devem pensar no que é bom apenas para si, mas naquilo que é bom para nós, como coletivo”.

O que é ainda difícil para a humanidade é entender como as decisões morais funcionam. Greene tenta explicar com uma metáfora: nosso cérebro opera como uma máquina fotográfica. O modo automático equivale às decisões morais baseadas na emoção, por isso são mais rápidas e não exigem reflexão instantânea. O modo manual seria equivalente à racionalidade, à uma forma de pensar e agir com deliberação. Esta dualidade, acredita, permite que nossas decisões sejam tomadas em equilíbrio entre eficiência e flexibilidade.

Experimentos mostram que cultura influencia moral

Na apresentação, Greene apresentou uma série de resultados de experimentos relacionados às decisões morais. Em um deles, batizado de “jogo do bem comum”, pessoas recebiam o valor de dez dólares e poderiam tomar duas decisões: guardar o dinheiro para si ou doar o dinheiro, que seria multiplicado e dividido entre todos os voluntários. Após o teste ser reproduzido em várias culturas, Greene pode demonstrar que a ação egoísta ou generosa está estritamente relacionada ao grau de confiança nas demais pessoas envolvidas na decisão. Quando as pessoas confiam em seu grupo, o índice de doação do dinheiro é bem superior.

“É um exemplo de tribalismo clássico, que pode se expressar também em situações como racismo”, afirma Greene, que exemplifica citando situações enfrentadas pela população negra, como a dificuldade em conseguir emprego quando disputam vagas com pessoas brancas ou a maior possibilidade de serem condenadas por um júri devido a cor de sua pele – mesmo que tudo isso esteja no inconsciente.

“Lidar com pessoas de outro grupo, outra tribo, afeta a área do cérebro que trata de sensações emocionais indesejadas”, explica. Esta mesma reação neurológica que explica as respostas a outro experimento, bastante famoso: é moralmente aceitável matar uma pessoa para salvar cinco?

Dada a situação hipotética de que um trem irá passar sobre um trilho onde estão cinco pessoas e que para salvá-las alguém terá que ser sacrificado, os pesquisados responderam: 63% deles optariam pelo sacrifício se a decisão fosse tomada apenas ao apertar um botão, mas apenas 31% tomaram a mesma decisão caso tivessem que empurrar a pessoa em questão.

Green explica que do ponto de vista neurológico, a tomada de decisão envolve várias partes do cérebro: ao pensar no efeito colateral da ação, que é a morte de alguém, aciona-se a amídala; quando se pesa a razoabilidade da atitude, ativa-se o córtex pré-frontal – e quanto mais próximo ao indivíduo está do resultado colateral de sua ação, mais a amídala influencia a decisão. No entanto, a moral não está mapeada em nenhum lugar específico do cérebro, mas no conjunto de ativações.

“Moralidade não tem modulo específico no cérebro, mas ela não está separada do resto. Moral e ética não são mecanismos, mas funções neurológicas”, conclui. “A ciência diz o que é, mas é a filosofia que vai explicar o que deve ser”, analisa.

Moral individual ou busca pelo bem maior?

Este é um debate de pelo menos três séculos na filosofia. Questiona-se qual a função da moral, a respeito de como ela deve deliberar sobre o que é mais correto: uma ação virtuosa ou a ação que promova o bem maior.

Greene contrapõe duas teses antagônica. De um lado, a argumentação sobre a ética promovida pelo filósofo alemão Immanuel Kant, para quem os fins não devem justificar os meios e as ações devem ser pensadas como uma medida que seja a melhor ação possível para todos os homens. De outro lado, a corrente majoritária do pensamento utilitário, cujo objetivo é garantir que todas as decisões e ações tenham como finalidade fazer o bem para a maior quantidade de pessoas possível.

Para o professor de Harvard, pensar em uma metamoralidade, uma espécie de sistema moral de ordem superior à moralidade básica, pode ser o caminho natural para resolver este tipo de debate. Mas, infelizmente, ainda não estamos evolutivamente preparados para tal. “É um novo problema, não da evolução natural, mas da evolução cultural. É fonte de outros vários problemas e nossa mente não está pronta para lidar com isso ainda”, analisa.

“No fim, a pergunta que deve ser feita é: vivemos todos melhor com esta ou com aquela decisão? Não se trata de um pensamento meramente utilitário, mas da busca por valores humanos”, concluiu.